Thursday, July 21, 2005

Sem título


Acabei de tomar o meu café e rapidamente fui-lhe no encalço. Aquele ar desordenado, que parecia o meu quarto antes da arrumação de fim de mês dava-lhe um charme que me atraia. Segui-a com cuidado para não dar conta, e passados uns minutos que pareceram horas, de tensão, lá consegui, com o que me parecia o consentimento dela, entrar na casa dela.

Meti conversa “que horas são”, bastante estúpido porque quando perguntei estavam a bater as onze no sino da Bolsa, mas ela não achou estranho, e passado um pouco por entre os “cá estamos” e “será que amanhã chove”, ela cedeu-me a passagem.

Porque é que eu não aprendo, é sempre a mesma coisa. Meto-me sempre nestas embrulhadas e depois tenho que andar a executar estes trabalhos sujos. Ora bem, vamos com calma. Recorro à minha memória fotográfica e através da imagem que tinha, tento reconstituir tudo como estava. Limpo, desvio, recoloco, tudo nos seus devidos lugares, pelo menos tento. Apago os vestígios da minha passagem, estou atento aos cheiros e à possível sujidade que possa ter deixado para trás, com esperança que não se perceba que eu passei por aqui.

Depois de uma garrafa de vinho, fiquei descontraído e como não podia deixar de ser, beijei-a e com a sofreguidão de quem não o fazia à muito tempo, suguei tudo o que a habitava, medos, prazeres, segredos, lágrimas, calor, enfim tudo, ou pelo menos assim o pensava. Quando acordei reparei que o tinha feito outra vez, decididamente não tinha emenda.

Quando for julgado por estes crimes acho que vou estar em reclusão por muito tempo. Com cuidado e para não fazer estardalhaço desnecessário, olhei para ela ali estática e com as devidas precauções abri a porta espreitei e saí o mais disfarçadamente possível.
Quero ser invisível, que ninguém me veja, que não me consigam identificar, aliás é este o meu modus operandi. Acho que consegui mais uma vez.

Sobressalto-me com o toque do telemóvel. Não pode ser, eu matei-a! Do outro lado com uma voz que mistura raiva com amor diz-me:
- Não te esqueças de passar aqui amanhã para levar o resto das tuas coisas.

Comments:
Isto promete. Força nessa escrita!
 
Ainda nesta semana uma qualquer revista cor de rosa sacava do Antonio Homem de Sá (actor) a confissão de que muitas vezes acordava de manhã e não sabia o nome daquela que tinha dormido com ele.
Mas gostei do tema.Continua com ele.
 
este conto está interessante... acontece não é?... cada um sabe de si e cada um vive e deve viver a vida à sua maneira...


jokas
 
O Pingú e a Zona Franca vão de férias. :) Até à volta!!!
 
E não te esqueças de levar o resto de ti, seu António Sá!
 
Galecius: como dizia o outro "Que nunca me falte a força na pena".
abraço

Adriano: Acho que já aconteceu a todos. Não te preocupes, eu volto a passar por este caminho.
Abraço
 
Ana: O fim das relações costuma ser assim, tentamos limpar tudo mas ficam sempre restos.
beijo

Freddy: Boas férias e grande abraço, sentiremos a tua falta.

Tweetie: de certeza que isto era para o Freddy, certo, ou há qualquer coisa que me está a escapar?!
 
Seu, seu Tweetie!!!
lol
logo levo o meu António Sá, só espero que resulte.
abraço
 
A verdade está com esse pintainho esperto! É deixar rasto mas nunca cá por fora! :D:D abraço
 
Grande Moleskine! Nunca o percas! ;-) Belo conto, gostei do uso do vernáculo na primeira parte!;-)

Um abraço
 
pois... e depois acordáste? AH! Ficcção, ok....
BJs
 
Quiosk: Estamos sempre a aprender!
Abraço.
Periférico:Sempre colado ao fígado.
Abraço
Sara: Depois decobriu que estava bem acordado, e que aquilo era resultado de uma cegueira de toupeira, alimentada por um sintoma específico, mulheres.
beijo
 
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