Wednesday, August 03, 2005
O reflexo

Mas não, os únicos gatos que conhecia eram os que via no reflexo dos espelhos que enchiam a casa, que no fundo não eram gatos, mas o seu próprio reflexo.
Nãos sabia o que era um espelho, sabia que era um gato.
Um dia, pela janela, da ilusão ou da realidade, entrou um gato em carne e osso, mas o gato não o sabia porque nunca tinha visto nenhum, a não ser nos espelhos.
Assustou-se quando sentiu o calor do gato. O cheiro fez com que os seus pêlos finos de átomo, cinzentos, se eriçassem, e um sentimento de atracção/repulsão tomasse conta de si. Dançou o que a genética lhe ensinara e passado pouco tempo estava agarrada pelas patas do gato abandonando-se àquele Amor de gato, pulsante e peludo.
Acordou e o gato tinha ido embora como surgira, pela janela da desilusão. Procurou-o nos espelhos e miou a infelicidade para quem quis ouvir, para ela. Passou dias sem comer até que sentiu algo a viver dentro de si. Deu-lhe um alento especial. Não sabia o que se estava a passar - os gatos não sabem, só sentem – mas sabia que tinha que viver.
Passaram-se uns meses e inchava como se fosse explodir, até que numa noite de dores de corpo e de alma (de gato), saíram do seu interior três imagens de espelho, pequeninas e com os olhos vedados aos reflexos.
Imediatamente intuiu o que acontecera. Ela gerara aquilo. Olhara-se ao espelho, desejara-se e aí estava a recompensa.
Mais três imagens do espelho iam deambular pelo seu mundo de gato e fazer o mesmo que lhe haviam feito, tirar-lhe a vontade de viver e devolvê-la passados uns tempos num ódio feito alegria.
Dentro do espelho morreu, fora ficou à espera do próximo.
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